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quinta-feira, 18 de março de 2010

Negativo e Negativo (3)

- Deve ser a terceira ou quarta vez que eu digo que é muito estranho fazer isso.
- O que? Você mesmo te entrevistar?
- Adivinha!
- Não sei porque estranhas tanto, é como se veres do espelho e admirares suas costeletas.
- Estranhas, veres. Por que diabos está falando assim? E eu odeio costeletas.
- Acho que é porque tive aula com uma professora portuguesa ontem.
- Isso faz de você uma pessoa volúvel?
- Sim.
- Sim?
- Sim.
- E você acha que é natural ser volúvel.
- Tão natural quanto um bebê chorar quando sente fome.
- E você se sente feliz por isso?
- Eu deveria me sentir feliz com cada característica natural do ser humano?
- Bem...
- Achas que tens o controle de tudo?
- É que...
- Te enganas alterego entrevistador. Tu não tens controle total de nada nesse mundo, escolha algo a chegar ao máximo do domínio total te tornarás o melhor. De resto relaxe, não lute contra sua natureza.
- Tudo bem, só pare com essa espécie de sotaque luso-brasileiro.
- Não é sotaque, o português brasileiro também deriva os verbos assim.
- Não é da escrita que estou falando, é do seu pensamento. Você está pensando com sotaque português e escrevendo.
- Ok, estou a parar por aqui.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Negativo e Negativo (2)

- Ok, vamos continuar...
- Onde você foi?
- O entrevistador aqui sou eu, ok?
- Agora vai vir com o papinho “a vida é minha eu faço o que quero”.
- Bom, na verdade eu não ia falar. Mas já que insiste, é isso mesmo.
- Ia sim, e você sabe que eu sei. Prossiga.
- Qual seu maior medo?
- Não conseguir seguir a carreira de publicitário.
- Por que?
- Eu não duvido do que eu possa ser capaz. Mas na vida a gente depende muito da sorte ou outros fatores. As vezes você ser bom no que faz não é o bastante. Pode faltar um empurrão de uma pessoa certa, que as vezes não cruza seu caminho. Milhares de coisas.
- E você faz alguma coisa pra superar esse medo?
- Claro!
- O que?
- Nada, eu vivo minha vida. Preocupação faz nascer cabelos brancos.
- Isso é fugir do medo, não enfrentá-lo.
- Esse é um tipo de medo que não se enfrenta. Apenas se convive até superá-lo naturalmente. Minha parte eu vou fazer, buscar ser bom no que faço e correr atrás, mas sem procurar nada no escuro.
- Não ficou bom isso. Esperava algo mais heróico sobre superação...
- Entendo. Posso falar de um medo mais objetivo. Meu medo de altura.
- Boa! E o que você faz pra superar esse medo?
- Não subo em lugares altos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Negativo e Negativo

- Nome?
- Rafael
- Idade?
- Depende, posso ter 50, posso ter 20, posso ter 10.
- Sua idade, quantos anos você tem?
- Eu já respondi.
- Ah, claro. Como não pensei antes, são suas idades mentais.
- Não só mentais, mas podem ser culturais, sociais...
- Entendo. 50 anos pode estar relacionado a músicas e filmes ditos como antigos, certo?
- Certíssimo.
- Sociais, vejamos, você se relaciona com pessoas de várias idades sem problema algum.
- Você parece me conhecer muito bem.
- Obviamente. Eu sou você mesmo te entrevistando.
- Detalhe. Isso não vem ao caso.
- Você trabalha? O que você faz da...
- Não podemos pular essas partes técnicas? Isso não interessa a ninguém.
-Ora ora. E o que faz você pensar que algo que diz interessa alguém? Independente se for “parte técnica” ou filosófica?
- Você quem deveria saber. Essa entrevista foi idéia sua.
-Bom, na verdade eu achei interessante perguntar o que você achou do seu blog aumentar em 20 vezes o número de acessos depois do artigo sobre as comparações entre Kubrick e Pink Floyd?
- Como assim “achar”? Não procuro nada, portanto não acho idem.
- Nem ficou feliz?
- Claro que fiquei. Não viu o outdoor na Av. Paulista que eu mandei colocar em homenagem ao artigo?
- Se eu não fosse você eu o faria engolir seu sarcasmo num gole só. E tem mais, em São Paulo foi proibido qualquer tipo de mídia externa.
- Ah, me pegou. Confesso, não mandei colocar outdoor algum.
- Então, o que você...
- Na verdade, isso tudo aqui é um erro. Que idiotice. Eu mesmo me entrevistando. Tudo que perguntar SOBRE MIM, automaticamente saberá a resposta.
- É aí que você se engana.
- Ah é? Me chamou de débil mental agora. Se você não sabe a resposta, é sinal que eu não sei. Isso não tem lógica.
- Veja: Você pensa em se casar? Quer ter filhos? O que vai fazer depois que se formar? Redação ou Arte? Led Zeppelin ou Pink Floyd?...
-Chega.
- Você não sabe responder.
- Não mesmo. Está orgulhoso agora?
- Na verdade, não sei responder.